domingo, 30 de dezembro de 2012
FSP, convidada vip no casamento do Cacheira
A Folha de São Paulo (aquela que emprestava carros para a ditadura, a mesma que disse que como no Brasil morreram poucos, o que houve aqui foi uma 'ditabranda') trata Carlinhos Cachoeira por 'empresário'. O cara é bandido, gangster, mafioso. Por respeito aos nossos muitos empresários sérios que temos no Brasil acho uma falta de respeito. Temos que dar o nome certo às coisas.
Pois bem, esse esgoto em forma de jornal mandou um 'enviado especial' para cobrir o casamento do mafioso (que nas pgs do panfleto é chamado, repito, de empresário). A matéria é podre, trato o gangster como coitadinho e dá destaque à grife do sapato usado pela noiva (aquela q ameaçou um juiz federal de que se não soltasse o mafioso ela faria seu comparsa, o Policarpo Jr, publicar podres seus na Veja, órgão no qual o mafioso manda e desmanda).
Certa tá a Folha. Certa tá a Veja. Temos que ajudar quem sempre esteve ao nosso lado. Errado estou eu: do esgoto só sai...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Pinheirinhos: o jeito tucano de governar
O pessoal do CAMARÁ Comunicação Popular produziu um excelente material sobre Pinheirinhos, São José dos Campos SP.
Dizer que são imagens e depoimentos que não passarão na Globosta, SBTrevas etc. é o mínimo. Eu tô falando do projeto tucano de gestão em áudio e vídeo.
Gases lacrimogêneo e de pimenta, tiros do borracha e normais. O braço armado do Estado agindo no limite da ilegalidade (como os tucanos adoram esse linear) com soldados não identificados.
Para termos noção da barbaridade e da truculência cometidas, na invasão da Rocinha para implantação da UPP, foram mobilizados 3 mil soldados contra centenas de traficantes armados em um terreno irregular e labiríntico. O governador Geraldo Alkmin mobilizou 2 mil soldados igualmente equipados com blindados e apoiados por helicópteros para desalojar 6 mil pessoas desarmadas. Permitam-me dizer de outra forma, o PSDB orquestrou uma operação que tinha a seguinte matemática: 1 soldado com pistola, cassetete, fuzil, capacete, escudo reluzente e toda a parafernalha para cada três cidadãos (sabe-se lá quantos destes eram crianças ou idosos).
Especulação imobiliária, relações suspeitas entre tucanos no judiciário e executivos regionais, um bandido do porte de Naji Najas, falta de projeto para o Brasil, inexistência de uma agenda, futuro eleitoral tenebroso e o medo de que o governo federal resolvesse tudo de forma pacífica (assim como no caso da desocupação da Cracolândia). Junte tudo e temos o explosivo vídeo a seguir.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Quem prejudica os Correios?
Quem prejudica os Correios?O fato da empresa ter se retirado da mesa de negociação e não apresentar uma proposta razoável é o maior responsável pela duração da greve por tanto tempo. Quanto mais dura a greve, mais correspondências atrasam, mais clientes vão para a concorrência (fato que eles colocam na conta do movimento paredista em explicita inversão das coisas), mais indenizações são pagas. Dinheiro indo pro ralo. O fato de a empresa já ter descontados os dias fere o parágrafo único do artigo 17 da lei de greve que "assegura aos trabalhadores o direito à percepção dos salários durante o período de paralisação". Sobre isso, a Justiça do Trabalho em João Pessoa já se pronunciou: a ECT não deve "efetuar descontos junto ao salário dos trabalhadores em razão da greve, refazendo as folhas de pagamento a fim de que sejam desfeitos os descontos ilegais, sob pena de multa R$ 300.000,00 ao fundo de amparo ao trabalhador". Esperamos que outros sindicatos e que a FENTECT entrem com ações semelhante para que trabalhadores do Brasil inteiro não sejam lesados com o desconto. Quantos trabalhadores entrarão com ação contra a ECT por assédio moral? Quanto a ECT poderá pagar por isso? Mais dinheiro indo pelo ralo.
Devemos acrescentar ao prejuízo causado aos cofres da nossa empresa a atitude irresponsável e ilegal da direção com o seu plano de contingência. Como não houve adesão expressiva de voluntários para liberar os pátios dos centros de operacionais do Brasil inteiro, a empresa resolveu usar da coerção: ordenou que todos os trabalhadores com salário singular, FAT (funçao de apoio técnico) ou função de confiança trabalhar na operacional durante o fim de semana. Quantos processos por desvio de função aparecerão? Quanto está custando botar todos os chefes de seção, ACOMs, CVEs, Sub-gerentes, gerentes, inspetores, instrutores, coordenadores regionais, assessores e sei lá mais quem para trabalhar ganhando 200%? Mais dinheiro que não necessitava ser gasto.
Os trabalhadores organizados não desejavam de antemão a greve. Preferíamos estar no nosso cotidiano normal. Mas a empresa não nos deu outra opção. Nós paramos nossas atividades para benefício de todos os trabalhadores e familiares. O que o movimento paredista conquistar será para todos. Por isso, achamos leviano a direção da ECT querer colocar os trabalhadores uns contra os outros.
Chamamos cada trabalhador dos Correios a refletir sobre o foi exposto. Reflita e chegue a sua conclusão sobre quem está jogando dinheiro de nossa empresa, gerado pelo nosso suor, pelo ralo por irresponsabilidade. Se você não estiver em greve e recebeu esta mensagem, espero que olhe com outros olhos para a luta que é de todos nós. Nenhum dos nossos benefícios foi dado pela empresa, todos foram conquistados na luta. E é na luta que faremos a ECT nos ouvir e apresentar uma proposta que chegue mais perto de nossas reivindicações.
****
PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO – 13ª REGIÃO
2ª VARA DO TRABALHO DE JOÃO PESSOA
GABINETE DO JUIZ
Ação Civil Pública: 0102000-07.2011.5.13.0002
Autor: SINDICATO DOS TRABALHADORES DA ECT NA PARAIBA EMPREITEIRAS E SIMILARES
Advogado do Autor: DANIEL ALVES DE SOUSA
Réu: EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELEGRAFOS
ANTECIPAÇÃO DE TUTELA
S E N T E N Ç A
Em sede de Ação Civil Pública, o sindicato demandante requer a antecipação dos efeitos da
tutela, fulcrado no artigo 273 do CPC, lastreando o pedido com farta documentação, dentre as quais
vislumbra-se a publicação(seq.02 e seguintes) de documento no qual textualmente – de forma clara e em
linguagem acessível, “informa” fomenta e fustiga esvaziar o movimento paredista deflagrado pelos
trabalhadores empregados da empresa demandada, mediante grave ameaça de se proceder a descontos,
perda de direito ao vale alimentação, vale transporte, assim como, descontos dos dias parados.
Os documentos trazidos ao juízo constituem prova inequívoca da existência de manifesta
intenção por parte da demandada, de imprimir ações – ainda que ilegais e com possibilidade objetiva de
acarretar danos irreversíveis aos trabalhadores, tudo com o fito de abortar o exercício pleno do Direito de
Greve; um direito social, fundamental por natureza, constitucionalmente previsto – Constituição Federal de
1988 (Título II), e devidamente regulamentado na Lei nº 7.783, de 28 de junho de 1989.
A busca incessante por melhores salários, por melhores condições de trabalho estão
associados intrinsecamente ao Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana(artigo 1º, III) da
Constituição Federal vigente.
Além da demonstração clara da violação injustificada da Constituição Federal e da legislação
vigente pertinente, vislumbra-se a iminência de se acarretar danos materiais e morais ao conjunto dos
trabalhadores, em face das ações e atitudes desmedidas praticadas pela empresa demandada, porquanto
os salários afiguram-se víveres, não podendo portanto, sofrer qualquer tipo ou espécie de descontos e/ou
retenção, como no caso SUB JUDICE.
Preenchidos os requisitos estampados no art. 273, I, do CPC, assim como ao que prescreve a
Lei nº 7.783/1989, antecipo os efeitos da tutela de mérito, e defiro o pedido constante do sequencial 01 –
página 11 – letra A,- peça inicial, e determino a demandada EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E
TELÉGRAFOS- ECT, se abstenha de efetuar descontos junto ao salário dos trabalhadores em razão
da greve, refazendo as folhas de pagamento a fim de que sejam desfeitos os descontos ilegais, sob
pena de multa R$ 300.000,00 ao fundo de amparo ao trabalhador, de conformidade com o “caput” do
art. 461, bem como os parágrafos 3º e 4º do mesmo dispositivo do CPC, sem prejuízo das
ASSINADO ELETRONICAMENTE PELA JUÍZA ANDREA LONGOBARDI ASQUINI (Lei 11.419/2006)
EM 23/09/2011 12:29:57 (Hora Local) - Autenticação da Assinatura: A004C31277.2125E714E5.9699919BF1.FDE17802A6
Confira a autenticidade deste documento em http://www.trt13.jus.br/validardocumento
Identificador de autenticação: 0102000.2011.002.65480 Seq. 9 - p. 1 de 2
PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO – 13ª REGIÃO
2ª VARA DO TRABALHO DE JOÃO PESSOA
GABINETE DO JUIZ
cominações penais por crime de desobediência; Caso já tenha ocorrido o desconto quando da
apreciação do presente pedido, que seja determinada a devolução imediata dos valores
descontados, pelas mesmas razões acima descritas. Expeça-se mandado, com urgência.
Ciência às partes.
João Pessoa, 23 de setembro de 2011
Andre Longobardi Asquini
Juíza do Trabalho em Exercício
ASSINADO ELETRONICAMENTE PELA JUÍZA ANDREA LONGOBARDI ASQUINI (Lei 11.419/2006)
EM 23/09/2011 12:29:57 (Hora Local) - Autenticação da Assinatura: A004C31277.2125E714E5.9699919BF1.FDE17802A6
Confira a autenticidade deste documento em http://www.trt13.jus.br/validardocumento
Identificador de autenticação: 0102000.2011.002.65480 Seq. 9 - p. 2 de 2
SINTECT-RJ ganha na justiça suspensão dos descontos dos dias parados
A justiça julgou procedente o pedido do Sindicato e deu a liminar que suspende o desconto dos dias parados. A decisão foi proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho, 1º Região, 46º Vara do Trabalho do Rio de Janeiro nesta terça-feira (27).
Clique AQUI e veja a liminar da justiça.
Nota da Fentect sobre a greve dos Correios
Nota sobre a Greve dos Correios
A campanha salarial dos trabalhadores dos Correios teve início no dia 12 de julho, quando a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos – FENTECT protocolou a Pauta Nacional de Reivindicações na ECT. Foram mais de 60 dias de diálogo, tempo suficiente para que a direção da empresa apresentasse uma proposta condizente com a realidade da categoria.
Hoje a ECT é a estatal que paga os piores salários, seja para os cargos de nível básico, técnico ou mesmo superior. Em conjunto com os baixos salários, a categoria tem sofrido com a falta de funcionários. Desde 2009 a ECT não realiza contratações. Essas duas situações permitiram que, mesmo com esta realidade adversa aos trabalhadores, os Correios conseguisse altos índices de produtividade e lucratividade.
Porém, da mesma forma que o lucro e a produtividade cresceram, a quantidade de trabalhadores afastados por doenças do trabalho, conseqüência do excesso de serviço, também cresceu. Conseqüentemente a qualidade do serviço foi afetada e, em nenhum momento a direção dos Correios dialogou com os trabalhadores ou população no sentido de esclarecer os motivos da queda na qualidade da prestação dos serviços postais.
A FENTECT sempre esteve disposta a negociar, mas também exige respeito aos trabalhadores. Houve tempo suficiente para a direção da ECT apresentar uma proposta que contemplasse a categoria. Os trabalhadores não vão mais aceitar o discurso de que as negociações só irão retornar com a volta ao trabalho. A categoria acreditou nessa história uma vez e o concurso que estava previsto para dezembro de 2009 só está sendo concretizado quase 2 anos depois. Queremos negociações imediatas.
Os trabalhadores que estão em greve ficaram revoltados com as declarações do Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, e do presidente da ECT, Wagner Pinheiro. A categoria exige mais respeito, pois cada um que está na greve busca uma vida digna e honesta. Grevista não está de férias, está lutando por seus direitos. Estranho é verificar que, tanto Paulo Bernardo quanto Wagner Pinheiro, fizeram suas carreiras políticas realizando greves, e agora resolvem fazer um julgamento tão equivocado sobre os trabalhadores grevistas.
Diante do exposto, o posicionamento da FENTECT neste momento é pela continuidade e fortalecimento da nossa GREVE por entender que ela é nosso maior poder de negociação.
José Rivaldo da Silva
Secretário Geral FENTECT
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Quando o lucro é mais importante que salvar vidas
Dei uma bisbilhotada lá e encontrei coisa interessantes. Pretendo reproduzir algumas coisas que forem postadas lá.
A primeira é sobre o lobby a favor das patentes de remédios. Como podemos ver, para a sanha por lucro, até doentes são nicho de mercado.
Embaixada fez lobby em nome das indústrias farmacêuticas
Posted on 16/12/2010
by Natalia Viana
Hoje o WikiLeaks disponibilizou no seu site documentos que contam como fucniona o lobby americano para proteger as patentes das empresas americanas. Os documentos podem ser vistos neste link.
Os telegramas mostram como os diplomatas atuavam para influenciar entidades brasileiras – em especial a Confederação Nacional das Indústrias – para evitar que a quebra de patentes de remédios anti-HIV se propagassem para outros medicamentos e produtos.
O temor da indústria americana fica claro por exemplo em um telegrama enviado em 26 de setembro de 2003, pouco depois que o governo assinou um decreto que permitia o licenciamento compulsório de remédios se houvesse uma emergência.
Nele, o diplomata Richard Verdin relata o que chama de “um crescente sentimento antipatentes no Brasil”.
O Brasil é mantido em uma lista “de alerta” (Spcial 301 Review) do governo americano sobre pirataria e respeito à proriedade intelectual. Os EUA tinham claramente um enorme receio quanto ao Governo Lula – que chegou a quebrar uma patente apenas, de um medicamento antiretoviral.
“Mais atenção para problemas de propriedade intelectual, especialmente na área de direitos de copyright, deve acontecer durante o novo governo Lula”, diz um telegrama de 2 de março de 2003. “É muito cedo para avaliar o compromisso do novo governo”.
“Manter o estatus do Brasil na lista Special 301 será o equilíbrio ideal entre o reconhecimento de uma tradição ruim em termos de respeito à propriedade intelectual, a esperança que o novo governo atue contra isso e o reforço da mensagem de que a propriedade intelctual continua sendo prioridade na nossa agenda bilateral”, conclui o documento.
A indústria farmacêutica americana não gostou nada da quebra da patente do medicamento anti-HIV Efavirenz, produzidos nos EUA e usado no combate à AIDS, em setembro de 2007.
Desde 2004 o embaixador John Danilovich se encontrava com diversos representantes do Itamaraty, como mostra um telegrama enviado em 10 de junho de 2005.
“No dia 10, o embaixador se reuniu com Clodoaldo Hugueney, subsecretário do Itamatary para Assuntos Econômicos e Tecnolóigicos, para discutir uma série de assuntos, principalmente a legislação que impediria a patente de medicamentos contra a AIDS, e a constante ameaça da licença compulsória contra as empresasa americanas Gilead Sciences, Abbott Laboratories, e Merck, Sharp & Dohme em relação aos seus medicamentos para AIDS”.
O telegrama revela que o embaixador estava pressionando pela mudança do projeto de lei.
“Quando perguntado pelo embaixador se um acordo entre o Ministério da Saúde e as empresas farnacêuticas poderia efetivamente matar a legislação sobre a patenteabilidade dos medicamentos contra a AIDS, Hugueney se esquivou de dar uma resposa definitiva, mas disse que via uma ligação entre os dois temas”.
Em outro telegrama, de 21 de agosto de 2009, a diplomata Lisa Kubiske avaliou que a “resistência do Itamaraty parece ser motivada pelo desejo de o Brasil assumir a liderança entre as nações em desenvolvimento e a crença política (liderada pelo Ministério da Saúde) de que as patentes farmacêuticas contrariam o interesse público, ao limitar o acesso aos medicamentos”.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Stiglitz: Ou mandamos os banqueiros para a prisão, ou a economia não vai se recuperar"
Stiglitz: Ou mandamos os banqueiros para a prisão, ou a economia não vai se recuperar"
Como não se cansaram de repetir o economista James Galbraith e o economista e penalista William Black, não podemos resolver a crise econômica, a menos que ponhamos na cadeia os delinquentes que cometeram atos fraudulentos. E o ganhador do prêmio Nobel de Economia, George Akerlof demonstrou que a negligência em castigar os delinquentes de colarinho branco e, a fortiori, resgatá-los, cria incentivos para que se cometam mais delitos econômicos e para que se proceda a uma destruição futura da economia. Outro Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, acaba de dizer a mesma coisa.
Joseph Stiglitz - SinPermiso
No dia 20 de novembro, Stiglitz declarou o que se segue ao Yahoo’s Daily Finance:
É um assunto realmente importante e nossa sociedade deve compreender cabalmente. Supõe-se que o sistema jurídico é a codificação de nossas normas e de nossas crenças, do que temos de fazer para que nosso sistema funcione. Se se percebe o caráter explorador em nosso sistema jurídico, então a confiança em todo o sistema começa a erodir. E esse é na verdade o problema que temos agora.
Uma multidão de práticas predatórias estão em vias de continuar como se nada tivesse ocorrido no sistema de crédito para a compra de automóveis. Por que está tudo bem para os maus empréstimos no setor automobilístico e não no mercado hipotecário? Há alguma razão de princípio? Todos sabemos a resposta: não. Não há razões de princípio, há razões de dinheiro. São as contribuições para as campanhas eleitorais, a troca de favores, as portas giratórias entre a política e os negócios, todas essas coisas.
O sistema está neste momento desenhado para estimular esse tipo de prática, apesar das multas [a referência é o ex-executivo da Countrywide, Angelo Mozillo, que acaba de pagar 10 milhões de dólares de multa, uma ínfima parte do que ganhou fradulentamente, porque ganhou centenas de milhões de dólares].
Conheço muita gente que diz: é um escândalo que tenhamos tido mais supervisão, controle e prestação de contas nos anos 80, quando se deu a crise de crédito e o arrocho, do que agora. Sim, aplicamos multas neles. E qual é a grande lição que se tira disso? Comporta-te mal, e o governo ficará com 5% ou 10% dos lucros mal havidos, que estarás muito tranquilo em casa, com várias centenas de milhões de dólares que ainda restarão para ti, depois de pagares umas multas que parecem enormes, mas que na verdade são muito pequenas em relação à quantidade de dinheiro que conseguiste embolsar.
O sistema está configurado de tal modo, que mesmo que te peguem, o castigo é apenas uma ínfima parte do que levas para a tua casa. A multa é apenas um custo a mais do negócio. É como uma multa de estacionamento. Às vezes decides estacionar mal sabendo que levarás uma multa, porque começar a dar voltas ao redor do estacionamento leva muito tempo.
Eu acredito que deveríamos fazer o que fizemos nos anos 80, com a crise de crédito e o com o arrocho, e pôr na cadeia um bom número destes tipos. Acredito nisso absolutamente. Não são apenas delitos de colarinho branco, ou pequenos incidentes. Há vítimas reais. É disso que se trata. Houve vítimas no mundo inteiro.
Ou acreditamos que esses tipos que nos meteram no atual estado de coisas mudaram realmente de atitude? Muito pelo contrário. Escutei alguns discursos que diziam: “Na verdade, não fez nada de realmente errado. Não fizemos as coisas muito bem. Mas nossa compreensão desses assuntos é bastante razoável”. Se pensam de verdade isso, estamos numa confusão realmente tremenda.
[A dissuasão do delito] tem aspectos distintos. Os economistas se concentram inteiramente na ideia dos incentivos. Às vezes as pessoas têm incentivos para se comportarem mal, porque podem ganhar mais dinheiro se dão calote ou se metem em atividades fraudulentas. Se queremos que nosso sistema econômico funcione, temos de nos assegurar de que nosso sistema econômico funcione, temos de nos assegurar de que o ganho com a fraude seja anulado pelo sistema de castigos e multas.
Por isso, no caso de nossa legislação anti-oligopólica, amiúde não detemos as pessoas quando elas se comportam mal, mas quando o fazem e podemos dizer que há danos constatáveis. Então, pagam três vezes o dano que causaram. É uma forma muito radical de dissuasão.
Desgraçadamente, o que estamos fazendo agora no caso desses delitos financeiros recentes são muitas frações – frações! – do dano direto causado, e uma fração ainda menor do dano social total. Quer dizer, o setor financeiro levou verdadeiramente o a economia global à bancarrota, e se levarmos em conta todos os danos colaterais, estamos falando já realmente de bilhões de dólares.
Mas se pode falar num sentido ainda mais amplo de dano colateral, ao qual não se tem prestado atenção. É a confiança em nosso sistema jurídico, no império da lei e do Estado de Direito, em nosso sistema de justiça. Quando se faz o Juramento de Lealdade [constitucional nos EUA], diz-se “justiça para todos”. Pois bem: as pessoas não têm segurança de que tenhamos justiça para todos. Alguns são detidos por algum delito menor de droga, e dão com os ossos no cárcere por muito tempo; mas quando se trata dos chamados delitos do colarinho branco, que não deixam de ter vítimas, quase nenhum dos sujeitos que os perpetram acaba atrás das grades.
***
Permita-me um outro exemplo que ilustra até que ponto nosso sistema jurídico descarrilhou, contribuindo para a crise financeira.
Em 2005 aprovamos uma reforma do processo de falência. Foi uma reforma defendida pelos bancos. Foi concebida para permitir legalmente o empréstimo – o mal empréstimo – a pessoas que não entendiam do assunto e basicamente destinada a estrangulá-las. A espoliá-las. E poderíamos tê-la chamado com justiça de “a nova lei de servidão permanente”. Porque é o que era, na realidade.
Permita-me que conte brevemente o quanto má era essa reforma. Não acredito que os estadunidenses entendam até que ponto era tão má. Ela realmente torna muito difícil que as pessoas consigam liberarem-se da dívida. O princípio básico nos EUA do passado era as pessoas terem o direito de começar bem a vida. As pessoas cometem erros. Especialmente quando são presas de espólio. E então têm direito a voltar a começar bem. Apaga-se a conta e se começa uma nova. Paga o que pode e volta a começar. Agora, se o fazes mais de uma vez, então é outra coisa. Mas ao menos, enquanto andam soltos esses emprestadores predadores, deverias conservar o direito de voltar a começar sem encargos.
No entanto, os bancos dizem: “Não, não e não; não podes liberar-te de tua dívida”, ou não podes livrar-te dela tão facilmente.
***
Essa é a servidão permanente. E criticamos os outros países por permitirem esse tipo de servidão duradoura, o trabalho escravo. Mas nos EUA instituímos isso em 2005, sem sequer promover um debate público sobre as consequências. O que essa lei fez foi animar os bancos a realizarem empréstimos ainda piores.
***
Os bancos pretendem que acreditemos que não fizeram empréstimos ruins. Negam-se a aceitar a realidade. É um fato que alteraram os critérios contábeis, de modo que os empréstimos prejudicados pela incapacidade dos devedores de pagarem o que devem se contabiliza da mesma maneira que as hipotecas que são pagas em bom prazo e sem mora.
De modo que toda a estratégia dos bancos consistiu em esconder as perdas, seguir enganando e em conseguir fazer com que o governo mantenha os taxas de juros realmente baixas.
***
Resultado: se toleramos essa estratégia, terá de se passar muito tempo antes que a economia se recupere.
Tradução: Katarina Peixoto
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Lula falará aos blogs sujos
Lula concede entrevista histórica à blogosfera nesta 4ª feira
A 37 dias do fim de seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concederá uma entrevista coletiva histórica, às 9 horas desta quarta-feira (24), no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). De forma inédita, Lula estará frente a frente não com jornalistas da mídia grande e golpista — mas, sim, com pelo menos dez representantes da blogosfera progressista.
Os entrevistadores confirmados são Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Cloaca (Cloaca News), Conceição Lemes (Viomundo), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Leandro Fortes (Brasilia Eu Vi), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna). Segundo Rovai — um dos articuladores da iniciativa —, “outros dois blogueiros buscam desmarcar compromissos para se integrar ao grupo”.
A entrevista com Lula foi reivindicada pela blogosfera em julho e tornou-se mais viável no mês seguinte, quando 330 blogueiros e tuiteiros participaram, em São Paulo, do 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. O evento será exibido em tempo real pelo Blog do Planalto.
“Não dava para incluir na entrevista os 330 participantes do Encontro — mas todos eles poderão participar na hora, por chat”, afirma o jornalista-blogueiro Altamiro Borges, o Miro, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
A coletiva constitui mais um marco na ascensão da blogosfera em 2010. “É uma vitória dos ‘blogs sujos’”, diz Miro, em ironia ao presidenciável do PSDB, José Serra. Às vésperas do Encontro de Blogueiros Progressistas, o tucano chamou de “sujos” os blogs que denunciavam as contradições de sua candidatura.
“Além de ter promovido um encontro nacional bem-sucedido, a blogosfera se organizou, teve papel relevante na campanha eleitoral e vem ganhando reconhecimento. Uma entrevista com o presidente só fortalece nossa luta”, agrega Miro.
Segundo ele, a coletiva não será “chapa-branca”, apesar do apoio maciço da blogosfera progressista ao governo Lula. “Não é uma festa. É uma entrevista séria, jornalística. Ninguém aqui vai se reunir com Lula para bajulá-lo ou poupá-lo de perguntas apimentadas.”
Em seu blog, Renato Rovai também saudou o acontecimento. “Será uma entrevista coletiva, mas também é um momento de celebração da diversidade informativa. Ao abrir sua agenda à blogosfera o presidente demonstra estar atento às transformações que acontecem no espaço midiático e ao mesmo tempo atesta a importância dessa nova esfera pública da comunicação.”
(André Cintra)
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Energia nuclear e indústria naval: questões de soberania
Saiu no Estadão:
Brasil planeja frota nuclear
Marinha brasileira vai ter seis submarinos atômicos e mais 20 de propulsão convencional até 2047
Roberto Godoy – O Estado de S.Paulo
A Marinha do Brasil está planejando uma formidável frota de seis submarinos nucleares e mais 20 convencionais, 15 novos e cinco revitalizados. Com seus torpedos e mísseis, será a mais poderosa força dissuasória do continente nos termos do Paemb, o Plano de Articulação e Equipamento da Marinha. A meta é de longo prazo, só será atingida em 2047. O custo estimado de cada navio de propulsão atômica é de € 550 milhões. O primeiro deles, incluído no ProSub, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, já em andamento, sairá por € 2 bilhões, valor composto pelos custos de transferência de tecnologia e outras capacidades (como a de projetar os navios) por parte do estaleiro francês DCNS. As outras unidades estão cotadas apenas pelo preço de construção, no novo estaleiro de Itaguaí, no litoral sul do Rio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita as obras em dezembro
…
Qual é a importância da Força de Submarinos pretendida pela Marinha do Brasil?
A defesa do pré-sal, a necessidade da segurança marítima e a nova posição do Brasil no contexto internacional são fatores, que reforçam a necessidade de priorizar a estratégia da dissuasão. O País possui uma linha de costa com cerca de 8.500 km de extensão, ao longo da qual se estendem nossas águas jurisdicionais, totalizando uma área aproximada de 4,5 milhões de Km². No espaço junto à costa concentra-se a maioria das capitais de Estados, complexos industriais e portos marítimos; encontram-se distribuídas centenas de plataformas para exploração submarina, sendo que mais de 90% do nosso petróleo (cerca de dois milhões de barris por dia são extraídos do mar) bem como 95% do comércio exterior brasileiro – cerca de US$ 300 bilhões anualmente – são transportados por via marítima.
Por que a opção pelo navio nuclear?
Nos submarinos destaca-se a capacidade de ocultação. No caso de um submarino de ataque com propulsão nuclear, a ameaça a um potencial agressor se torna maior, em função da operação em maior profundidade; manutenção de elevada velocidade por tempo indeterminado, possibilitando patrulhar extensas áreas geográficas; e, claro, a capacidade de realizar ataques a múltiplos alvos, em vista de sua grande mobilidade, discrição e poder de fogo.
…
São Paulo está fora da corrida pela instalação de novas centrais nucleares no País. Estudos da estatal Eletronuclear sobre a localização das próximas quatro usinas, programadas para entrar em funcionamento até 2030, levantaram obstáculos técnicos à construção de instalação nuclear no Estado.
Grandes concentrações populacionais, pouca disponibilidade de água e, paradoxalmente, a presença de grande reservatório subterrâneo, o aquífero Guarani, são quesitos que desaconselham o funcionamento de uma central nuclear em São Paulo, de acordo com avaliação realizada pela estatal, a que o Estado teve acesso.
As duas próximas usinas nucleares brasileiras serão construídas no Nordeste, às margens do rio São Francisco. A localização exata depende de uma decisão política do futuro governo Dilma Rousseff. Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe disputam a central.
Com a saída de São Paulo do páreo, a Eletronuclear detalha estudos de outras localidades no Sudeste e não está descartada a ampliação das instalações de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, cidade que já abriga as duas primeiras usinas brasileiras.
Angra 3 teve as obras retomadas recentemente, depois de mais de 20 anos de paralisação.
O infinito provincianismo do PiG (*) não consegue perceber o tamanho do Brasil.
Três países do mundo têm, ao mesmo tempo, urânio e capacidade de enriquecer urânio: o Brasil, os Estados Unidos e a Rússia.
Breve, cessará a hegemonia do petróleo e o mundo vai rodar à base de energia nuclear, muito mais limpa.
(Lamentavelmente, a Bláblárina, que é contra Darwin e a pesquisa com célula-tronco, ainda não entendeu o alcance de energia nuclear.)
Além do mais, o Brasil tem o pré-sal.
Nos últimos trinta anos, o pré-sal é, no mundo, a maior descoberta de petróleo – feita durante o Governo Lula, que sepultou a Petrobrax.
Aqui no Brasil, o PiG (*) e seus colonistas (**) consideram de mau tom usar expressão que é corriqueira nos Estados Unidos e em qualquer país que se leve a sério.
É a expressão “interesse nacional”.
O interesse nacional impõe a “saída nuclear”.
Para defender a exploração do pré-sal, por exemplo.
E, se um dia, a presidente americana Sarah Palin decidir entrar nas águas territoriais brasileiras em frente a Macaé, para chupar o pré-sal por baixo d’água ?
Quem vai defender o “interesse nacional” brasileiro ?
O Otavinho ?
O Ali Kamel ?
A urubóloga ?
O Fernando Henrique ?
O Padim Pade Cerra ?, agora abalado com a revolucionária decisão do Papa de deixar prostituto masculino usar camisinha,
O que dirá a estadista chileno-brasileira Monica Serra sobre essa Bolsa Família para a Johnson&Johnson ?
Se você, amigo navegante, fizer uma lista com os três maiores países do mundo em área; outra com os três maiores países do mundo em população; e outra com os três maiores países do mundo em PIB.
Sabe quais os únicos países que estarão em todas as três listas, amigo navegante ?
Estados Unidos, China e Brasil.
O Fernando Henrique corta os pulsos quando ouve isso.
O Brasil joga na “primeira liga”.
Lula tirou o Brasil da segundona.
Pois é, amigo navegante.
O Brasil não vota contra o Irã na ONU porque o Brasil pensa no “interesse nacional”.
Da mesma forma que os Estados Unidos na ONU passam a mão na cabeça dos assentamentos de Israel e no desrespeito aos direitos da mulher na Arábia Saudita.
Potência é assim.
O “interesse nacional” fala mais alto.
Em tempo: este ordinário blogueiro também é a favor da bomba atômica [eu, Matus, também]. Considera que Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso enfraqueceram o Brasil quando se alinharam com os Estados Unidos na questão da bomba. É o “complexo de vira-lata”.
Em tempo2: por que o Padim Pade Cerra criticou tanto a política brasileira para o Irã, na campanha ? Porque ele sabe que isso é do “interesse nacional” brasileiro e, não do interesse americano. A loucura do Padim Pade Cerra tem uma lógica: a dos Estados Unidos. A mesma que, segundo Gilmar Dantas (***), inspira Elio Gaspari.
Paulo Henrique Amorim
(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.
(**) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG (*) que combatem na milícia para derrubar o presidente Lula. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.
(**) Clique aqui para ver como um eminente colonista (**) do Globo se referiu a Ele. E aqui para ver como outra eminente colonista (**) da GloboNews e da CBN se refere a Ele.
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A retomada da indústria naval e a soberania
Para aqueles que, até mesmo nas fileiras da esquerda, chegaram a dizer que os candidatos presidenciais eram todos iguais, eis aqui uma estupenda diferença: enquanto os neoliberais conseguiram demolir e paralisar uma das mais expandidas indústrias navais do mundo, a brasileira - fazendo com que desde 2000 não se produzissem mais navios aqui - o governo Lula acaba por transformar o setor em fonte geradora de emprego, desenvolvimento tecnológico, promoção de justiça social e, especialmente, alavanca indispensável para se alcançar a soberania. O artigo é de Beto Almeida.
Beto Almeida
Marinheiro , marinheiro,
Quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro
Eu também sei navegar
Geraldo Vandré
Muitas lições podem ser tiradas da retomada da indústria naval no Brasil que nesta sexta-feira lançou, no Estaleiro Mauá, em Niterói mais uma grande embarcação ao mar, o navio Sérgio Buarque de Hollanda. Mas, certamente, deve-se discutir com prioridade que não é possível pensar um Brasil soberano sem uma indústria naval desenvolvida. Para aqueles que, até mesmo nas fileiras da esquerda, chegaram a dizer que os candidatos presidenciais eram todos iguais, eis aqui uma estupenda diferença: enquanto os neoliberais conseguiram demolir e paralisar uma das mais expandidas indústrias navais do mundo, a brasileira - fazendo com que desde 2000 não se produzissem mais navios aqui - o governo Lula acaba por transformar o setor em fonte geradora de emprego, desenvolvimento tecnológico, promoção de justiça social e, especialmente, alavanca indispensável para se alcançar a soberania.
O que pensar de um país com costa superior a 8 mil e 500 quilômetros sem uma indústria naval desenvolvida? Eis aí a tarefa dos neoliberais que se ocuparam de destruir o que havia sido levantado na Era Vargas em particular. O Brasil chegou a ter a sua empresa estatal no setor, a Loyd Brasileiro, e a ocupar uma posição de destaque no cenário mundial da construção naval. A própria navegação de cabotagem teve expressivo desenvolvimento e nem podia ser diferente. Vargas chegou a criar a frota do álcool e do petróleo. Com o neoliberalismo dos anos 90 tem início a demolição devastadora. Ela alcançou todos os pilares estruturais do transporte, seja ferroviário (privatização da Rede Ferroviária), aéreo (privatização da Embraer) e o naval, com a privatização do Loyd Brasileiro seguida de uma programada desindustrialização. O desemprego foi dramático, generalizado.
Organizadores de derrotas
Demolir a indústria naval é organizar a dependência, é organizar a derrota de uma nação. Mais que isto, é programar sua incapacitação para a defesa, pois sem indústria naval não há como ter também uma Marinha equipada à altura dos potenciais de riqueza que devem ser defendidos. As autoridades de defesa já indicaram, em numerosas oportunidades, a situação de desarmamento em que se encontra e ainda se encontra a Marina Brasileira, agora em fase de recuperação. É certo que ainda falta muito, porém, recuperar a indústria naval é condição indispensável para organizar uma capacidade de defesa do porte das magníficas riquezas que o petróleo pré-sal representa. Aí está o desafio. Nesta linha de raciocínio podemos concluir que uma indústria naval recuperada é fator que se junta à Nova Estratégia de Defesa Nacional.
Há alguns anos, antes da divulgação da existência do petróleo pré-sal, a imprensa noticiou a existência de um estranho relatório da CIA indicando que as plataformas da Petrobrás em alto-mar eram muito vulneráveis a atentados terroristas. Seria um relatório ou seria uma espécie torta de ameaça, ainda que velada? Agora, vemos a Quarta Frota dos EUA ser retomada e se insinuar pelos mares do sull depois de décadas paralisada. Junte-se a isto, a discussão recente na OTAN sobre a mudança de sua doutrina militar, cujo raio de operação deverá incluir o Atlântico Sul. De fato, na situação atual a Marinha não tem ainda as condições para realizar uma defesa efetiva de todo o potencial de riquezas contido na plataforma continental brasileira. Esta área, agora ampliada para 350 milhas, também chamada Amazônia Azul, possui, além de petróleo, gigantescas reservas de biodiversidade sempre desafiando nossas universidades e os centros de tecnologia da Marinha para o desenvolvimento das tecnologias apropriadas ao seu adequado aproveitamento em favor do nosso povo.
Em resposta à proposta de intervencionismo ampliado da OTAN, o governo brasileiro, pela voz do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, já afirmou que as nações desta região sul deverão capacitar-se para ter a condição de dizer NÃO quando chegar a situação de ter que dizê-lo concretamente, ou seja, tendo capacidade de defesa para fazê-lo. Sem indústria naval, sem tecnologia própria, sem indústria de defesa, não há como falar de soberania efetiva.
A retomada da indústria naval, o projeto do submarino nuclear, o reequipamento da Marinha, e, sobretudo, sua modernização, são medidas que sintonizam-se plenamente com a renacionalização da Petrobrás, sua consolidação e com medidas que recuperam o papel do estado na formulação das diretrizes econômicas. Ou seja, exatamente ao contrário dos governos neoliberais, para quem o estado deve ser mínimo. Afinal, ricos não precisam de estado. A informação de que há centenas de navios e embarcações encomendadas pela Petrobrás, gerando milhares e milhares de empregos qualificados e com carteira assinada, reforçam o movimento sindical, a previdência, o mercado interno. Até mesmo a Escola Técnica do Arsenal de Marinha, que há 10 anos estava paralisada, voltou a ativa e está formando técnicos imediatamente contratados pela construção naval. Até a estatal venezuelana, a PDVSA, tem encomendados no Brasil a construção de 17 embarcações petroleiras. Integração produtiva latino-americana é o outro ingrediente neste episódio.
Soberania em vários quadrantes
Mas, para além desta conclusão que liga recuperação naval e soberania, o lançamento do novo navio, cuja madrinha é a cantora Miúcha, estimula a reflexão sobre outras medidas necessárias. Se era absurdo um país do porte do Brasil não tivesse uma indústria naval, também o é não ter sob controle público a indústria aeronáutica, sobretudo porque a Embraer foi produto de um esforço da poupança nacional, irresponsavelmente entregue aos interesses internacionais, quando há todo um potencial de aproveitamento da aviação regional por desenvolver aqui no Brasil. O resultado da privatização da Embraer e sua dependência do mercado internacional foi a demissão de mais de 4 mil trabalhadores da ex-estatal quando a crise estourou no capitalismo do primeiro mundo. Certamente, a estratégia deve voltar-se para o mercado interno. Como disse Lula no lançamento do “Sérgio Buarque de Hollanda” enquanto os EUA estão perdendo 70 mil empregos, o Brasil está gerando este ano mais de 2 milhões e meio de novos postos de trabalho. Aqui nasce uma nova classe médica, nos EUA há uma erosão na classe média, que está sendo despejada, dormindo nas praças públicas... Com a imensidão do Brasil e sem sistema de transporte ferroviário eficiente - também foi demolido - a aviação regional poderia receber um grande impulso no Brasil, mas não sem antes recuperar o controle sobre a Embraer, como está fazendo na área naval e de petróleo.
Cultura e soberania
Assim sucessivamente. Todas as medidas neoliberais resultaram em enormes prejuízos para a poupança popular, ou para a tecnologia nacional, ou para a soberania. Ou tudo junto. Se fôssemos analisar o cinema, por exemplo, quando existia a Embrafilme, cerca de 40 por cento do mercado cinematográfico era ocupado por produção nacional. Bons filmes e maus filmes, como em todo lado. Mas, havia uma indústria viva, gerando empregos, absorvendo talentos, renovando-se e superando em linguagem e em capacidade produtiva. O fim da Embrafilme jogou o cinema brasileiro no chão. Sob aplausos do cinema norte-americano que passou a ocupar 95 por cento do mercado brasileiro. E cinema também é soberania, como parte da construção da identidade nacional.
A retomada da indústria naval, do papel protagonista do estado, são medidas inequivocamente necessárias. E respondem concretamente aos sinais de aprofundamento da crise nos centros do capitalismo. E bem sabemos, pela história, que as crises mais agudas do capitalismo tendem a buscar superação na economia de guerra. Por isto o intervencionismo crescente, sem que Obama possa mudar quase nada. Por isso o reforço orçamentário da indústria bélica dos EUA, a principal rubrica do orçamento, o que equivale a uma ameaça contra os países que possuem grandes reservas de riqueza, como é o nosso caso. E ainda não nos recuperamos plenamente da devastadora demolição organizada pelos neoliberais, um desarmamento unilateral, em favor dos que pretendem tomar conta dos mares, ignorando soberanias e o direito dos povos.
Há um conjunto de sinais sombrios indicando que o mundo cobrará de nós brasileiros a coragem e a rebeldia de João Cândido, da Revolta da Chibata, o almirante negro da música de Aldir Branco e João Bosco. Mas, a embarcação do Brasil Nação está encontrando o rumo certo.
(*) Beto Almeida é membro da Junta Diretiva da Telesur
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Rodrigo Vianna: o trem bala simboliza o avanço pro interior
O trem-bala e o eixo Rio-Campinas
publicada quinta-feira, 18/11/2010 às 11:37 e atualizada quinta-feira, 18/11/2010 às 11:37
por Rodrigo Vianna
No próximo dia 29 – a 30 dias do fim do governo – deve ocorrer a maior licitação da Era Lula: 33 bilhões de reais é o preço mínimo da licitação do trem-bala entre Rio e São Paulo.
Eu disse entre Rio e São Paulo? Esse é um erro comum. Mas a verdade é outra: no projeto do moderno trem, São Paulo é “apenas” passagem. O velho eixo Rio/SP já não dá conta da diversidade do Brasil. É simbólico que o traçado do novo trem seja Rio-Campinas, com paradas no Vale do Paraíba e na capital paulista.
Símbolo, eu diria, de um país que avança para o interior. Durante 4 séculos, incluindo os trezentos anos de colonização portuguesa, as principais cidades brasileiras ficavam – todas elas – na nossa imensa costa atlântica. Só no limiar do século XX é que o Brasil – já republicano – veria sua primeira metrópole longe (mas nem tão longe) do litoral: São Paulo. Depois, viriam Belo Horizonte e – graças ao planejamento dos anos JK – Brasília. Durante a ditadura, nova metrópole longe do litoral: Manaus, cidade encravada no meio da Floresta Amazônica. Até hoje me surpreendo quando chego de avião à capital amazonense. É espantoso ver a dimensão daquela cidade (cheia de problemas, diga-se) que os brasileiros foram capazes de construir.
O traçado do trem-bala é o reconhecimento desse Brasil que caminha – a passos lentos, mas sem retorno - para o interior. O trem ajuda a estruturar e a ampliar esse eixo que já foi Rio-SP, mas hoje avançou cem quilômetros rumo ao interior paulista.
Um eixo que terá, numa das pontas, o atrativo do turismo carioca e da fortíssima indústria do petróleo (a restaurar, espera-se, o vigor da economia fluminense). E, na outra ponta, o agronegócio, a indústria e os centros de inovação do interior paulista (Campinas, lembremos, é polo de conhecimento e inovação – com a Unicamp).
Por fim, é bom não esquecer, o Vale do Paraíba, onde o trem deve parar, é sede da indústria de aviação brasileira (e também um território de inovação e conhecimento, com o ITA).
Simbólico que o trem passe por uma área que já foi tomada pelos cafezais no século XIX. Os morros valeparaibanos sem vegetação (a mata foi derrubada pra ceder lugar ao café) são testemunho daquela época. Sobraram os pastos e algumas belas fazendas – históricas – que vale a pena conhecer, tanto do lado fluminense como do lado paulista.
Dali partia o café que sustentou a República Velha e que forneceria os capitais para a incipiente industrialização paulista no entre-guerras do século XX. Agora, esse pode ser o eixo da nova economia do século XXI.
E a capital paulista? Virou passagem. Cidade de serviços (mais do que indústria) São Paulo vai mediar os contatos entre Rio e Campinas. São Paulo seguirá importante. Mas é simbólico – também – que o projeto do trem-bala Rio-Campinas seja obra de um governo (de Dilma) que deve ser o primeiro em 16 anos a afastar a centralidade paulista do poder.
Leio que esse ramal do trem-bala (que pode ser construído por coreanos – seriam os favoritos pra vencer a concorrência) seria apenas o primeiro. Serviria, no futuro próximo, como espinha dorsal para outros trechos a unir Brasília e Belo Horizonte: uma poderosa rede ferroviária do século XXI.
Desde a liquidação da RFFSA, o transporte por trens no Brasil concentrou-se no setor de carga. A malha serve, basicamente, como escoadouro para exportações.
O trem-bala põe os brasileiros de volta nos trilhos. Dinheiro e incentivo públicos serão necessários – reclamam os puristas da iniciativa privada. Ah, é? E qual foi o projeto importante no Brasil que prescindiu da mão forte do Estado?
Sem a indução estatal, não haveria indústria pesada, não haveria Petrobrás, não haveria Brasília, Manaus.
O trem-bala pode ser a marca de um Brasil que avance para o interior não apenas pra abrir novas fronteiras agrícolas a serviço do agronegócio exportador. Não. Pode ser o eixo de um novo ciclo de desenvolvimento onde caiba inovação, tecnologia, serviços, indústria de ponta. Tudo isso com mais Educação, e salários melhores.
O Brasil não deve se contentar com o papel de “fazenda” a alimentar europeus e chineses. Sem abrir mão da riqueza agrícola, é possível construir agora um país múltiplo: com petróleo, etanol, ferro, carros, navios, aviões, chips e computadores.
Pela primeira vez, desde que me entendo por gente, olho pra frente e não vejo “crise” e “medo”. Mas esperança de um país melhor.
Partes do Nordeste, do Norte amazônico e do sul brasileiros podem (devem!) também criar seus polos de inovação.
Um desafio e tanto! E o mais interessante: é possível fazer tudo isso sem “Estado Novo”. Sem milicos nem “Brasil Grande”. Com democracia e liberdade.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Tânia Bacelar: preconceito contra o NE reflete desconhecimento da história brasileira
O seu artigo responde à manifestação que ocupou o Twitter na semana passada sugerindo morte aos nordestinos por conta da vitória de Dilma. Como a senhora avalia essa situação?
Acho que esse debate reflete que existe um preconceito realmente e que há uma imagem deformada do Nordeste, principalmente no Sudeste e no Sul. Uma imagem de que o Nordeste é uma região de miséria, que é uma carga, como se não tivesse potencialidades. Isso reflete, primeiro, o desconhecimento da história do país. O Nordeste é o lastro econômico, cultural e político do Brasil. Mas num determinado momento dessa história, os investimentos e a dinâmica se concentraram no Sudeste e o Nordeste perdeu o trem da industrialização lá no século 20.
Quais perdas o país pode ter com posturas desse tipo?
A gente pode perder um dos aspectos pelos quais o país é admirado. Quem já viveu no exterior sabe que uma das características que tornam a nossa sociedade admirada lá fora é a capacidade de conviver com a diferença.
Em que áreas estão os potenciais do Nordeste?
O governo federal retomou o crescimento das universidades públicas. Fez quatro universidades na região. Cidades médias, como Petrolina (PE) e Mossoró (RN), não tinham universidades públicas. As pessoas têm potencial para se desenvolver, mas não têm oferta de oportunidade. Acho que a gente deve discutir onde devemos colocar os novos investimentos e o Nordeste já mostrou que pode dar uma resposta positiva com o pouquinho de mudança que já aconteceu nessa década. É errado achar que tudo o que é defesa de São Paulo é defesa do Brasil e tudo o que é defesa de qualquer outro lugar é ´defesinha` regional. São Paulo é muito importante mas não representa o Brasil. O Brasil é muito mais. A gente precisa balizar melhor esse debate sem deixar de reconhecer a importância de São Paulo. Mas não podemos caricaturar os outros de ser peso, de não ter com que contribuir.
O presidente Lula foi corajoso ao mudar o foco dos investimentos?
Lula teve um atributo muito interessante. Perdeu várias eleições, levou muito tempo se preparando para ser presidente do país e fez as tais caravanas. Eu atribuo essa leitura que ele tem do Brasil à chance que ele teve de conhecer profundamente o Brasil inteiro. Isso muda a cabeça.
Quem votou em Dilma aposta na continuidade do governo. Pelos discursos proferidos até agora por ela a senhora acredita que as políticas de investimento no Nordeste serão mantidas?
Tenho me surpreendido positivamente com ela. Por exemplo, o discurso feito no momento em que ela recebeu a notícia que tinha vencido, considero muito bom. Ela começa falando das mulheres, depois assume o compromisso com a eliminação da pobreza extrema. Diz também ter compromisso com os pequenos empreendedores do Brasil e assume isso. Achei muito bonito, depois de falar da erradicação da miséria, ela ter se lembrado dos pequenos empreendedores. O Nordeste está cheio deles.
As oligarquias deram sua contribuição para o enraizamento desse preconceito, não?
Parte da explicação vem das oligarquias. Para as antigas, ainda bem que elasestão morrendo e perdendo eleitoralmente. Os resultados dessa eleição são um novo baque. É importante lembrar que elas não só existem no Nordeste. Santa Catarina é um ´brilho` de oligarquias. No discurso delas não interessava mostrar potencial. Porque elas se locupletavam da miséria. O discurso reproduzia a miséria. Elas ajudaram a criar o preconceito.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Apropriação indébita: como os ricos estão tomando nossa herança comum

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Apropriação indébita: como os ricos estão tomando nossa herança comum
Ladislau Dowbor
Gar Alperovitz and Lew Daly – Apropriação Indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum – Editora Senac, São Paulo 2010, 242 p.
A concentração de renda e a destruição ambiental constinuam sendo os nosso grandes desafios. São facetas diferentes da mesma dinâmica: na prática, estamos destruindo o planeta para a satisfação consumista de uma minoria, e deixando de atender os problemas realmente centrais. Como explicar que, com tantas tecnologias, produtividade e modernidade, estejamos reproduzindo o atraso? Em particular, como a sociedade do conhecimento pode se transformar em vetor de desigualdade?
O prêmio Nobel Kenneth Arrow considera que os autores de “Apropriação indébita: como os ricos etão tomando a nossa herança comum”, Gar Alperovitz e Lew Daly, “se baseiam em fontes impecáveis e as usam com maestria. Todo mundo irá aprender ao ler este livro”. Eu, que não sou nenhum prêmio Nobel, venho aqui contribuir com a minha modesta recomendação, transformando o meu prefácio em instrumento de divulgação. Mania de professor, querer comunicar o entusiasmo de boas leituras. E recomendação a não economistas: os autores deste livro têm suficiente inteligência para não precisar se esconder atrás de equações. A leitura flui.
A quem vai o fruto do nosso trabalho, e em que proporções? É a eterna questão do controle dos nossos processos produtivos. Na era da economia rural, os ricos se apropriavam do fruto do trabalho social, por serem donos da terra. Na era industrial, por serem donos da fábrica. E na era da economia do conhecimento, a propriedade intelectual se apresenta como a grande avenida de acesso a uma posição privilegiada na sociedade. Mas para isso, é preciso restringir o acesso generalizado ao conhecimento, pois se todos tiverem acesso, como se cobrará o pedágio, como se assegurará a vantagem de minorias?
Um argumento chave desta discussão, é naturalmente a legitimidade da posse. De quem é a terra, que permitia as fortunas e o lazer agradável dos senhores feudais? Apropriação na base da força, sem dúvida, legitimada em seguida por uma estrutura de heranças familiares. Uma vez aceito, o sistema funciona, pois na parte de cima da sociedade forma-se uma aliança natural ditada por interesses comuns.
Na fase industrial, um empresário pega um empréstimo no banco – e para isso ele já deve pertencer a um grupo social privilegiado – e monta uma empresa. Da venda dos produtos, e pagando baixos salários, tanto auferirá lucros pessoal como restituirá o empréstimo ao banco. De onde o banco tirou o dinheiro? Da poupança social, sob forma de depósitos, poupança esta que será transformada na fábrica do empresário. Aqui também, vale a solidariedade dos proprietários de meios de produção, e o resultado de um esforço que é social será em boa parte apropriado por uma minoria.
Mudam os sistemas, evoluem as tecnologias, mas não muda o esquema. Na fase atual, da economia do conhecimento, coloca-se o espinhoso problema da legitimidade da posse do conhecimento. A mudança é radical, relativamente aos sistemas anteriores: a terra pertence a um ou a outro, as máquinas têm proprietário, são bens “rivais”. No caso do conhecimento, trata-se de um bem cujo consumo não reduz o estoque. Se transmitimos o conhecimento a alguém, continuamos com ele, não perdemos nada, e como o conhecimento transmitido gera novos conhecimentos, todos ganham. A tendência para a livre circulação do conhecimento para o bem de todos torna-se portanto poderosa.
A apropriação privada de um produto social deve ser justificada. O aporte principal de Alperovitz e de Daly, neste pequeno estudo, é de deixar claro o mecanismo de uma apropriação injusta – Unjust Deserts – que poderíamos explicitar com a expressão mais corrente de apropriação indébita. Ao tornar transparentes estes mecanismos, os autores na realidade estão elaborando uma teoria do valor da economia do conhecimento. A força explicativa do que acontece na sociedade moderna, com isto, torna-se poderosa.
Para dar um exemplo trazido pelo autor, quando a Monsanto adquire controle exclusivo sobre determinada semente, como se a inovação tecnológica fosse um aporte apenas dela, esquece o processo que sustentou estes avanços. “O que eles nunca levam em consideração, é o imenso investimento coletivo que carregou a ciência genética dos seus primeiros passos até o momento em que a empresa toma a sua decisão. Todo o conhecimento biológico, estatístico e de outras áreas sem o qual nenhuma das sementes altamente produtivas e resistentes a doenças poderia ter sido desenvolvida – todas as publicações, pesquisas, educação, treinamento e ferramentas técnicas relacionadas sem os quais a aprendizagem e o conhecimento não poderiam ter sido comunicados e fomentados em cada estágio particular de desenvolvimento, e então passados adiante e incorporados, também, por uma força de trabalho de técnicos e cientistas – tudo isto chega à empresa sem custo, um presente do passado” (55). Ao apropriar-se do direito sobre o produto final, e ao travar desenvolvimentos paralelos, a empresa canaliza para si gigantescos lucros da totalidade do esforço social, que ela não teve de financiar. Trata-se de um pedágio sobre o esforço dos outros. Unjust Deserts.
Se não é legítimo, pelo menos funciona? A compreensão do caráter particular do conhecimento como fator de produção já é antiga. Uma jóia a este respeito é um texto 1813 de Thomas Jefferson:
“Se há uma coisa que a natureza fez que é menos suscetível que todas as outras de propriedade exclusiva, esta coisa é a ação do poder de pensamento que chamamos de idéia....Que as idéias devam se expandir livremente de uma pessoa para outra, por todo o globo, para a instrução moral e mútua do homem, e o avanço de sua condição, parece ter sido particularmente e benevolmente desenhado pela natureza, quando ela as tornou, como o fogo, passíveis de expansão por todo o espaço, sem reduzir a sua densidade em nenhum ponto, e como o ar no qual respiramos, nos movemos e existimos fisicamente, incapazes de confinamento, ou de apropriação exclusiva. Invenções não podem, por natureza, ser objeto de propriedade.” (1)
O conhecimento não constitui uma propriedade no mesmo sentido que a de um bem físico. A caneta é minha, faço dela o que quiser. O conhecimento, na medida em que resulta de um esforço social muito amplo, e constitui um bem não rival, obedece a outra lógica, e por isto não é assegurado em permanência, e sim por vinte anos, por exemplo, no caso das patentes, ou quase um século no caso dos copyrights, mas sempre por tempo limitado: a propriedade é assegurada por sua função social – estimular as pessoas a inventarem ou a escreverem – e não por ser um direito natural.
O merecimento é para todos nós um argumento central. Segundo as palavras dos autores, “nada é mais profundamente ancorado em pessoas comuns do que a idéia de que uma pessoa tem direito ao que criou ou ao que os seus esforços produziram”.(96) Mas na realidade, não são propriamente os criadores que são remunerados, e sim os intermediários jurídicos, financeiros e de comunicação comercial que se apropriam do resultado da criatividade, trancando-o em contratos de exclusividade, e fazem fortunas de merecimento duvidoso. Não é a criatividade que é remunerada, e sim a apropriação dos resultados: “Se muito do que temos nos chegou como um presente gratuito de muitas gerações de contribuiçoes históricas, há uma questão profunda relativamente a quanto uma pessoa possa dizer que “ganhou merecidamente” no processo, agora ou no futuro.”(97)
As pessoas em geral não se dão conta das limitações. Hoje 95% do milho plantado nos EUA é de uma única variedade, com desaparecimento da diversidade genética, e as ameaças para o futuro são imensas. Teremos livre acesso às obras de Paulo Freire apenas a partir de 2050, 90 anos depois da morte do autor. O livre acesso às composições de Heitor Villalobos será a partir de 2034. Isto está ajudando a criatividade de quem? Patentes de 20 anos há meio século atrás podiam parecer razoáveis, mas com o ritmo de inovação atual, que sentido fazem? Já são 25 milhões de pessoas que morreram de Aids, e as empresas farmacêuticas (o Big Pharma) proibem os países afetados de produzir o coquetel, são donas de intermináveis patentes. Ou seja, há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações.
Nesta era em que a concentração planetária da riqueza social em poucas mãos está se tornando insustentável, entender o mecanismo de geração e de apropriação desta riqueza é fundamental. Os autores não são nada extermistas, mas defendem que o acesso aos resultados dos esforços produtivos devam ser minimamente proporcionais aos aportes. “A fonte de longe a mais importante da prosperidade moderna é a riqueza social sob forma de conhecimento acumulado e de tecnologia herdada”, o que significa que “uma porção substantiva da presente riqueza e renda deveria ser realocada para todos os membros da sociedade de forma igualitária, ou no mínimo, no sentido de promover maior igualdade”.(153)
Um livro curto, muito bem escrito, e sobretudo uma preciosidade teórica, explicitando de maneira clara a deformação generalizada do mecanismo de remuneração, ou de recompensas, que o nosso sistema econômico gerou. Trata-se aqui de um dos melhores livros de economia que já passaram por minhas mãos. Bem documentado mas sempre claro na exposição, fortemente apoiado em termos teóricos, na realidade o livro abre a porta para o que podemos qualificar de teoria do valor, mas não da produção industrial, e sim da economia do conhecimento, o que Daniel Bell qualificou de “knowledge theory of value”. A Editora Senac tomou uma excelente iniciativa ao traduzir e publicar este livro. Vale a pena. (www.editorasenacsp.com.br)
(1) Citado por Lawrence Lessig, The Future of Ideas: the Fate of the Commons in an Connected World – Random House, New York, 2001, p. 94
(*) Ladislau Dowbor, professor de economia e administração da PUC-SP, é autor de Democracia Econômica e de Da propriedade Intelectual à Sociedade do Conhecimento, disponíveis em http://dowbor.org
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
A corrente dos desesperados
O espetáculo de preconceito é ilustrativo do desepero que assola a hoste tucana.
Li o e-mail e lembrei de um funk das Panteras: Elas tão descontroladas.
A última cruzada tucana
Leandro Fortes
E quando acabar essa moleza, não se esqueçam: é pra votar no Serra!
O conteúdo abaixo caiu na minha caixa de spam, hoje de manhã, enviado por um certo Rodrigo Roni, certamente um dos muitos brucutus de internet a serviço da campanha de José Serra. Normalmente, apago da minha caixa de mensagem de e-mails correntes de quaisquer naturezas, pela óbvia razão de serem escritas e disseminadas por fanáticos religiosos, militantes políticos extremistas e idiotas em geral. Esta, contudo, embora não fuja à regra, é bastante emblemática sobre o desespero de certa porção da classe média em relação à perspectiva da vitória de Dilma Rousseff e da continuidade dos programas sociais do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de um panfleto anti-petista por excelência, recheado de preconceitos e ofensas amarguradas, um último apelo à insensatez em nome da preservação dos piores e mais mesquinhos valores dessa parcela da sociedade brasileira que caminha, felizmente, para a extinção.
Para garantir votos ao tucano José Serra, a corrente estabelece uma fórmula baseada, explicitamente, nas relações da Casa Grande com a Senzala. Ensina ao patrão e à dona-de-casa de classe média como convencer empregadas domésticas, porteiros, motoristas, ascensoristas e empregados em geral do perigo que representará a eleição de Dilma. Reparem que as recomendações são para os empregados de dentistas, advogados, clientes, nunca para os dentistas, advogados e clientes, desde já colocados como pessoas de primeira categoria, portanto, imunes ao discurso patético de persuasão apregoado pelo panfleto. Há, ainda, o risível apelo a ser feito “ao atendente da sauna, da academia, da escola de natação, da escola de inglês das crianças”.
Enfim, um texto altamente representativo do tipo de elite que temos no País, suas razões, seus preconceitos, seus medos e seu instinto de preservação baseado em conceitos primários. Uma elite que acha que pode convencer seus serviçais, a quem trata como escravos, a não votar na continuidade de um projeto político que lhes garantiu, pela primeira vez na vida, emprego formal, crédito, qualidade de vida, auto-estima e representação política real.
No auge do desespero, o autor do texto deixa transparecer seu caráter doentio ao se referir a Dilma como “perereca assassina e terrorista”. É essa gente que se coloca como alternativa a um governo popular que tirou o Brasil do buraco.
Vale a pena ler, portanto, esse tratado da demência de auto denominados “formadores de opinião”:
Como Ganhar Votos para o Serra
Meus amigos,
Tenho recebido da maioria de vocês, quase que diariamente, emails de indignação contra PT e Dilma.Ficar falando entre nós não leva a nada. E o que a gente precisa fazer é ir atrás dos indecisos, dos que possam até gostar do Lula mas não necessariamente da Dilma, quem sabe ainda dá pra virar essa eleição.
Mas eu pergunto – o que realmente estamos fazendo para que o José Serra ganhe esta eleição??? Por que não adianta nós, os denominados “formadores de opinião” ficarmos trocando emails de coisas que já sabemos. Assim, convoco a todos para um pacto que é:
CONVERSAR COM, NO MÍNIMO, DUAS PESSOAS POR DIA SOBRE A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL E CONVENCER ESTA PESSOA A VOTAR NO SERRA
Quem são as pessoas que temos que conversar e convencer:
· a sua assistente doméstica / sua diarista
· seus funcionários
· o guarda da escola das crianças, a tia da escola, a tia da cantina
· o porteiro da sua casa e do seu trabalho
· o manobrista do seu carro, para quem usa estacionamento
· o ascensorista do prédio do seu dentista, do seu advogado, do seu cliente
· o frentista do posto de gasolina
· a caixa do supermercado, da farmácia, do sacolão, …..
· a recepcionista da empresa do seu cliente
· a vendedora da loja de sapato, de roupa, ….
· o garçon do restaurante e do boteco
· o cabeleireiro, a manicure, a fisioterapeuta, a massagista,
· o atendente da sauna, da academia, da escola de natação, da escola de inglês das crianças, etc
Vejam que todos os dias, encontramos no mínimo 10 pessoas diferentes na nossa vida. Daqui até o dia 31 de outubro são somente 12 dias de trabalho, em prol da mudança de grupo político para governar nosso país.
Não queremos ver o PT mais 8 anos no governo se locupletando e explorando a boa fé dos incautos e/ou ignorantes.
Em vez de falar do tempo, vamos falar da eleição. Quando encontrar alguém no elevador, pergunte em quem ele vai votar. E se essa pessoa disser que vai votar no Serra, instigue ele a entrar nessa campanha.
Não envie apenas, emails falando do passado da Dilma, que o Lula não estudou, que o governo do PT sabia do mensalão, (isso nós já sabemos).
Vamos à luta!!!
Esse é o momento, FAÇA A SUA PARTE!!! Ninguém vai saber se você fez a sua parte, somente você e Deus.
A hora de trabalhar é agora !!
Esta é uma corrente… do BEM.
Funciona assim:
Se você passar este e-mail para pelo menos 10 outras pessoas e estas passarem para outras 10, e assim por diante, ao final de outubro um milagre irá acontecer e beneficiará você e sua família e a todas as famílias que repassaram esta corrente. Já, se você simplesmente ignorar esta corrente, não a repassando, ao final de outubro você será amaldiçoado com o pior de todos os pesadelos: aturar a perereca assassina e terrorista por quatro longos anos de sua vida!!!! Pense bem !!
Não se esqueça!
Foi a Internet que ganhou o plebiscito do desarmamento.
Portanto, podemos vencer essa eleição também, se nos concentrarmos em um candidato melhor que o Lula. Com ela: PODE FICAR MUITO PIOR.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Luis Fernando Ayerbe: a morte de Kirchner gera um vácuo de liderança na Argentina
28/10/2010 - 15:24 Luis Fernando Ayerbe São Paulo
O legado deixado por Néstor Kirchner
Diferentemente dos seus principais aliados regionais Hugo Chávez, Luiz Inácio Lula da Silva e Evo Morales, que chegam à presidência como autêntica expressão da nova geração de partidos políticos e movimentos sociais legitimados na oposição ao “Consenso de Washington”, a ascensão de Néstor Kirchner, de extensa trajetória no peronismo, buscou recompor a credibilidade do sistema político e econômico, afetado pelo quadro de crise de amplas proporções gerado pelo colapso financeiro que levou ao fim do governo de Fernando De la Rua em 2001.
Eleito presidente em 2003, desde o início, seu governo operou um processo de recuperação econômica, favorecido pela suspensão dos pagamentos da dívida, ampliação do consumo de uma população desconfiada com o sistema bancário que confiscou parte da sua poupança, e a desvalorização cambial, que impulsionou as exportações e a recuperação da indústria voltada para o mercado interno. Após a queda do PIB de 10,8% em 2002, inicia-se um período de expansão, com crescimento de 8,8% em 2003, 9,0% em 2004, 9,2% em 2005, 8,5% em 2006 e 8,7% em 2007, último ano do seu mandato. Em maio de 2005, foi concluída a oferta de bônus da dívida em default, obtendo-se a adesão de 76,15% dos credores, que implicou num desconto nominal de 65,6% sobre um total de dívida reestruturada de 102 bilhões de dólares.
Com a situação favorável no âmbito da economia, o grande desafio é desarmar o radicalismo que a conflitividade social tinha atingido, abalando a confiança da sociedade na classe política, incorporada em bloco na palavra de ordem “que se vayan todos”, que unificou os protestos que derrubaram De la Rua. Parte fundamental dessas manifestações teve como protagonista o movimento piquetero, que irrompe no país na década de 1990, formado por grupos de desempregados que protestam cortando estradas. A resposta dos sucessivos governos orientou-se pelo estabelecimento de assistência na forma de transferência de renda através dos chamados Planes Trabajar (PT), criados por Carlos Menem, que mudam de nome para Planes de Jefes y Jefas de Familia (PJJF) em 2002. De 200.000 PT em 1997, passa-se a 1.300.000 PJJF em outubro de 2002, estabilizando-se em 2.100.000 a partir da ascensão de Néstor Kirchner.
Outra área de atuação que o aproxima das reivindicações dos movimentos sociais é a política de direitos humanos, em que reabre as discussões sobre a ação das forças armadas durante o regime militar de 1976-83. Em março de 2006, quando se cumprem 30 anos do golpe, Kirchner coloca publicamente em discussão a anulação dos indultos concedidos por Menem em 1990 aos principais dirigentes da ditadura. No mês de abril de 2007, o Tribunal Penal Federal considera inconstitucionais os decretos de anistia com base na tese da não prescrição dos crimes contra a humanidade. Essa postura lhe granjeia o apoio de organizações de defesa dos direitos humanos, como as Mães e Avós da Praça de Maio.
A trajetória do presidente revela um forte pragmatismo, mostrando capacidade de adaptação às mudanças político-ideológicas que afetaram o país e o seu partido nas décadas recentes. Vinculado à Tendência Revolucionária, próxima ao Movimento Peronista Montonero, nos anos de estudante de direito na Universidade de La Plata, adquiriu projeção como político na sua província natal, Santa Cruz, elegendo-se prefeito da capital e depois governador por três mandatos, após aprovar reforma constitucional garantindo a reeleição indefinida. Durante a presidência de Menem, foi um dos seus principais aliados, destacando-se entre os governadores que apoiaram a privatização da empresa YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales).
Rompe com Menem no momento em que este busca alterar a legislação para tentar uma segunda reeleição, alinhando-se com Duhalde, candidato presidencial do Partido Justicialista (PJ) derrotado por De la Rua. Eleito presidente, vai se afastando de Duhalde até o rompimento, nas eleições legislativas de 2005, em que lança a Frente Para a Vitória (FPV). Embora aliada do PJ, a FPV terá algumas candidaturas próprias, como a da Primeira Dama, Cristina Fernandez. Militante peronista desde a juventude e com uma trajetória parlamentar iniciada em 1985, no processo de redemocratização, concorre ao senado pela Província de Buenos Aires, derrotando Hilda Duhalde, esposa do ex-padrinho político.
Os resultados favoráveis nas eleições, em que seus aliados resultam vencedores em 14 das 24 províncias, fortalecem a liderança de Kirchner. Como passo seguinte, busca afiançar o poder, estabelecendo acordos que lhe garantem maioria no parlamento, apoio da maior parte dos governadores e prefeitos do país, convivência pacífica com as centrais sindicais e os setores mais moderados dos piqueteros. Por outro lado, a experiência da FPV dá fôlego ao projeto de construir uma nova força política de centro esquerda, para a qual busca atrair setores de trajetória diversa, dentro e fora do peronismo.
A iniciativa mais importante nesse sentido é o lançamento de Cristina Fernandez à sua sucessão, numa fórmula em que o candidato à vice-presidente Julio Cobos, governador da província de Mendoza, pertence à União Cívica Radical, que vence as eleições no primeiro turno, em 28 de outubro de 2007. Néstor Kirchner termina su mandato con índice de imagen positiva próximo a los 60%.
Num quadro de crise e mobilização que parecia antever o inicio de uma situação pré-revolucionária, a ordem retorna na Argentina das mãos do peronismo, colocando em operação, embora com matizes novos, seu tradicional poder de atração de lideranças políticas, sociais e sindicais para a esfera do Estado. Nesse processo, Néstor Kirchner constrói uma liderança cuja influência transcende o exercício do seu mandato, tornando-se o principal operador político da presidência de Cristina, tanto na dimensão da gestão do poder executivo, como da articulação das suas bases de sustentação no âmbito dos demais poderes do Estado, as organizações partidárias, os sindicatos e movimentos sociais.
A morte inesperada, aos 60 anos de idade, quando se cogitava seu nome como candidato às eleições de 2011, traz grandes desafios para o governo de Cristina. Além da dolorosa perda pessoal, deverá enfrentar o vácuo deixado pela sua liderança, componente fundamental do projeto de poder que construíram juntos, e que se tornou referência obrigatória do debate nacional sobre os rumos futuros da Argentina.
*Luis Fernando Ayerbe é coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Rodrigo Vianna: o dia em que até a Globo vaiou Ali Kamel

Tirado do Escrivinhador
O dia em que até a Globo vaiou Ali Kamel
Passava das 9 da noite dessa quinta-feira e, como acontece quando o “Jornal Nacional” traz matérias importantes sobre temas políticos, a redação da Globo em São Paulo parou para acompanhar nos monitores a “reportagem” sobre o episódio das “bolinhas” na cabeça de Serra.
A imensa maioria dos jornalistas da Globo-SP (como costuma acontecer em episódios assim) não tinha a menor idéia sobre o teor da reportagem, que tinha sido editada no Rio, com um único objetivo: mostrar que Serra fora, sim, agredido de forma violenta por um grupo de “petistas furiosos” no bairro carioca de Campo Grande.
Na quarta-feira, Globo e Serra tinham sido lançados ao ridículo, porque falaram numa agressão séria – enquanto Record e SBT mostraram que o tucano fora atingido por uma singela bolinha de papel. Aqui, no blog do Azenha. você compara as reportagens das três emissora na quarta-feira. No twitter, Serra virou “Rojas”. Além de Record e SBT, Globo e Serra tiveram o incômodo de ver o presidente Lula dizer que Serra agira feito o Rojas (goleiro chileno que simulou ferimento durante um jogo no Maracanã).
Ali Kamel não podia levar esse desaforo pra casa. Por isso, na quinta-feira, preparou um “VT especial” – um exemplar típico do jornalismo kameliano. Sete minutos no ar, para “provar” que a bolinha de papel era só parte da história. Teria havido outra “agressão”. Faltou só localizar o Lee Osvald de Campo Grande. O “JN” contorceu-se, estrebuchou para provar a tese de Kamel e Serra. Os editores fizeram todo o possível para cumprir a demanda kameliana. mas o telespectador seguiu sem ver claramente o “outro objeto” que teria atingido o tucano. Serra pode até ter sido atingido 2, 3, 4, 50 vezes. Só que a imagem da Globo de Kamel não permite tirar essa conclusão.
Aliás, vários internautas (como Marcelo Zelic, em ótimo vídeo postado aqui no Escrevinhador) mostraram que a sequência de imagens – quadro a quadro – não evidencia a trajetória do “objeto” rumo à careca lustrosa de Serra.
Mas Ali Kamel precisava comprovar sua tese. E foi buscar um velho conhecido (dele), o peritoRicardo Molina.
Quando o perito apresentou sua “tese” no ar, a imensa redação da Globo de São Paulo – que acompanhava a “reportagem” em silêncio – desmanchou-se num enorme uhhhhhhhhhhh! Mistura de vaia e suspiro coletivo de incredulidade.
Boas fontes – que mantenho na Globo – contam-me que o constrangimento foi tão grande que um dos chefes de redação da sucursal paulista preferiu fechar a persiana do “aquário” (aquelas salas envidraçadas típicas de grandes corporações) de onde acompanhou a reação dos jornalistas. O chefe preferiu não ver.
A vaia dos jornalistas, contam-me, não vinha só de eleitores da Dilma. Há muita gente que vota em Serra na Globo, mas que sentiu vergonha diante do contorcionismo do “JN”, a serviço de Serra e de Kamel.
Terminado o telejornal, os editores do “JN” em São Paulo recolheram suas coisas, e abandonaram a redação em silêncio – cabisbaixos alguns deles.
Sexta pela manhã, a operação kameliana ainda causava estragos na Globo de São Paulo. Uma jornalista com muitos anos na casa dizia aos colegas: “sinto vergonha de ser jornalista, sinto vergonha de trabalhar aqui”.
Serra e Kamel não sentiram vergonha.
Dilma: "ninguém respeita quem deixa uma parte do seu povo na miséria"
Dilma contou que custou a entender quem era o 'você' da música Apesar de você do Chico, canção que ela conheceu no Presídio Tiradentes, onde foi parar por lutar contra a ditadura, momento de revés. Demonstrando maturidade, disse que momentos como aqueles ajudaram a torná-la combativa.
"Apredemos a perder. Quem perde adquire uma grande capacidade de resistir. Eu quero dizer a vocês que eu me formei na vida política perdendo. Mas perdendo e ao mesmo tempo ganhando, porque ganhar a capacidade de lutar e de resistir é algo que uma geração não pode abrir mão. Eu tenho muito orgulho das minhas derrotas, porque foram boas derrotas, foram derrotas de uma luta correta."
Falou da descontrução de tabus. "O primeiro tabu é que era impossível que esse país crescesse e distribuísse renda". "O Brasil podia crescer sim sem que houvesse inflação". Que não era possível investir em ensino fundamental (básica e média) e ensino superior e que os investimentos teriam sempre que sacrificar o último.
Um balanço da gestão Lula não poderia deixar de falar em inclusão social. Dilma corrigiu Boff: "governo nenhum consegue tirar 28 milhões da pobreza e elevar, porque já é 28 milhões, viu, meu querido Boff... a gente, mesmo com a crise, incorporou mais gente, tirou da miséria e incorporou 36 milhões às classes médias. Ninguém consegue isso se não perseguir isso sistematicamente".
Falou de futuro. "o meu compromisso é que é possível erradicar a pobreza no Brasil, é possível! Não só é possível, como é, melhor ainda, visível. Nós temos a possibilidade de fazer isso nos próximos anos. E por que eu digo isso? Nós tiramos - e não é um dado que pode ser objeto de disputa eleitoral -, nós tiramos 28 milhões, na situação dos 28 milhões, tem mais em torno de 21 milhões. 21 milhões, mantida esta política, ou acelerada, nós tiramos num horizonte que nós podemos enxergar o resto dos brasileiros da situação de miséria".
Relacionou política internacional, soberania nacional, com política interna, programas sociais no que foi o tapa de pelica em FHC.
"Mas é também, como eu disse no início, a nossa concepção política que levou a sermos capazes política de respeito em relação aos países da Europa, aos Estados Unidos e ao Japão. Foi a nossa atitude, hoje nós somos respeitados lá fora também por uma outra razão: ninguém respeita quem deixa uma parte do seu povo na miséria, ninguém! Pode ser um intelectual mais brilhante, mas ninguém respeita, se não tirar seu povo da miséria, ninguém respeita".
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Chauí: estamos lutando pela dignidade e pela cidadania do povo brasileiro
Dilma leva eu.
Sou feliz e agradeço
Por tudo que você fez.
Beth Carvalho pediu licença a Serginho Meriti e Eris do Cais, autores do clássico samba, e conduziu a plateia com maestria.
Esse foi um dos momentos que ficarão pra sempre na minha memória e que gostaria de partilhar com vocês. Assim como quando todo o teatro cantou com Lia de Itamaracá a clássica ciranda que tem seu nome.
Coube a Paulo Betti fazer a síntese - como ele mesmo disse - do período eleitoral: "você pode ter direito, você cobra, mas você não faz aquilo que você prega", referindo-se a demissão de Maria Rita Kelh do Estadão. Mas Gogh, antes de passar o chapéu pra Dilma, também sintetizou o movimento da direita nesse momento eleitoral: "eles confundem a fé na maldade que eles colocam, na tão falada, famigerada, Família, Tradição e Propriedade".
Leonardo Boff disse que pediu a deus, em sua oração matinal, um sinal e foi atendido. Se Oscar Niemeyer, com seus 102 anos, viesse, seria um sinal de que a vitória virá. E lá estava ele. Boff passou a palavra a Chico Buarque, a quem chamou de anjo Gabriel. Chico falou como um chanceler: "O Brasil que queremos não fala fino com Washington e nem grosso com Bolívia e Paraguai. Por isso, é ouvido e respeitado no mundo todo".
Luiz Alberto Goméz de Souza leu trechos do manifestos Se nos calarmos, até as pedras gritarão assinado por evangélicos e católicos, entre eles D. Thomas Balduíno e D. Pedro Casadáliga.
Marilena Chauí, com suas clareza, exatidão e perspicácia características, disse que estávamos ali para continuar incluindo todo o povo brasileiro no mundo da cidadania. "Todos os programas sociais não são quaisquer programas, eles são programas de afirmação da dignidade, da cidadania e da presença de todo o povo brasileiro no campo da cultura, no campo da educação, no campo da economia, no campo da vida digna e feliz. É isso que nós queremos que continue, é por isso que estamos lutando".
Seu discurso passou pelo conceito de Democracia, pré-sal, programas sociais, pela obscenidade do panfleto da oposição. Discurso tão rico que achei melhor trazer na íntegra.
(O discurso de Dilma virá na próxima postagem)